Quase queda dos passos, cansou-se de estar e passou a olhar os telhados, os gritos dos enforcados nos cantos dos quarteirões, não lamentou a alma vagando em si mesma, presa ao papelão torácico!
Os sapatinhos no alto engravatavam-se agradecidos, horas mortas à porta da frente da catedral. De luto, uma velha olhava com velas nos olhos a centopéiassaudade do dia dos seus mortos!
Amar? Amem. Amém!
A velha sorriu com uma palavra presa entre os dentes!
Ladainha branca dos ângelustelhados depenados entre as vigas!
Eduardo Martins
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
A M O R
Como se eu não estivesse aqui de fato. De repente sou flagrado por uma consciência surda-muda enquanto atravesso a calçada, enxugando o suor que escorre das têmporas com as costas da mão. Dias quentes. Alguns metros adiante o asfalto oscila diante de mim. A Terra vai morrer em breve e não sei como me proteger do futuro assustador. Lacrimejo sem querer - terá sido o vapor? A língua seca, uma outra gota de suor se formando na extensão de minha coluna vertebral. Sou tão biológico.
A planta é verde mas de tanta poeira observo que suas folhas estão pálidas. Poeira do mundo, migalhas de nossos grandes feitos. Humanidade velha. Qual a razão? Tem uma sombra adiante, vou cair nela e ficar deitado até que, como um metal super aquecido, possa me fundir ao chão. Cimento não, tampouco as coisas mortas. Vou passar direto pela sombra, é isso, decidi, vou passar direto pela sombra e provar do suor salgado saindo de dentro de mim. Mais uma lágrima.
Voo do pensamento acima das (poucas) nuvens no céu de hoje. Imensidão azul, como um mar que existisse sobre nós e somos os seres mais próximos do centro do planeta. Voo do pensamento para onde não haja motivo além da própria palavra motivo. Mar de motivo e eu. Mar de motivo para amar. Todas as cores girando em espiral, mentalize a espiral, todas as cores existentes girando sem fim na sua direção e a sensação de estar flutuando. Uma placenta: amor de mãe. Os olhos são pouco para aguentar a Beleza, é preciso doar a pele por esta causa.
É preciso doar a pele por esta causa e abraçar. O abraço como realização de toda vontade que ultrapassa os sentidos. O abraço como realização de toda vontade que ultrapassa a existência. Amor de graça. Fazer sombra pro coração um do outro nesses dias tão quentes que derretem toda matéria. Esquecer a matéria, abraçar com braços de soluço aquilo que não se vê. Abraçar com braços de soluço aquilo que está ali, não importa se vemos ou não.
Amor humano. Tremelicar os dedos no ar, tal qual criança descobrindo o oxigênio. Encontrar no ar outros dedos tremelicando, tocar estes dedos, descobrir junto com eles que o oxigênio nos une a todos através de uma necessidade. Descobrir no outro uma parte do oxigênio que lhe cabe, e saber roubar-lhe o ar docilmente. Num suspiro. Ar que falta, amor que sobra. Inspire profundamente, meu amor, e pense no que seria de você sem este ar que entra: eu sem você. Amor sexual. Todas as sensações divinas que se consegue por ser humano. Uma nova face da dedicação.
Olhos lacrimejando. O que é a gravidade que eu esqueci? Amor sem nome. Amor embrião. Descubro que estou lacrimejando pelo corpo todo e o calor já não é mais motivo, há uma diferença entre os pés no chão e o chão nos pés. Ou você racionaliza o que está composto ou a razão se compõe a partir de você, e no segundo caso todas as plantas empoeiradas têm o verde mais urgente da vida: urgência por existir. Voo do pensamento pro momento presente: amor permanente. Como se eu não estivesse aqui de fato. Em arco-íris.
B r a y a n C a r v a l h o
A planta é verde mas de tanta poeira observo que suas folhas estão pálidas. Poeira do mundo, migalhas de nossos grandes feitos. Humanidade velha. Qual a razão? Tem uma sombra adiante, vou cair nela e ficar deitado até que, como um metal super aquecido, possa me fundir ao chão. Cimento não, tampouco as coisas mortas. Vou passar direto pela sombra, é isso, decidi, vou passar direto pela sombra e provar do suor salgado saindo de dentro de mim. Mais uma lágrima.
Voo do pensamento acima das (poucas) nuvens no céu de hoje. Imensidão azul, como um mar que existisse sobre nós e somos os seres mais próximos do centro do planeta. Voo do pensamento para onde não haja motivo além da própria palavra motivo. Mar de motivo e eu. Mar de motivo para amar. Todas as cores girando em espiral, mentalize a espiral, todas as cores existentes girando sem fim na sua direção e a sensação de estar flutuando. Uma placenta: amor de mãe. Os olhos são pouco para aguentar a Beleza, é preciso doar a pele por esta causa.
É preciso doar a pele por esta causa e abraçar. O abraço como realização de toda vontade que ultrapassa os sentidos. O abraço como realização de toda vontade que ultrapassa a existência. Amor de graça. Fazer sombra pro coração um do outro nesses dias tão quentes que derretem toda matéria. Esquecer a matéria, abraçar com braços de soluço aquilo que não se vê. Abraçar com braços de soluço aquilo que está ali, não importa se vemos ou não.
Amor humano. Tremelicar os dedos no ar, tal qual criança descobrindo o oxigênio. Encontrar no ar outros dedos tremelicando, tocar estes dedos, descobrir junto com eles que o oxigênio nos une a todos através de uma necessidade. Descobrir no outro uma parte do oxigênio que lhe cabe, e saber roubar-lhe o ar docilmente. Num suspiro. Ar que falta, amor que sobra. Inspire profundamente, meu amor, e pense no que seria de você sem este ar que entra: eu sem você. Amor sexual. Todas as sensações divinas que se consegue por ser humano. Uma nova face da dedicação.
Olhos lacrimejando. O que é a gravidade que eu esqueci? Amor sem nome. Amor embrião. Descubro que estou lacrimejando pelo corpo todo e o calor já não é mais motivo, há uma diferença entre os pés no chão e o chão nos pés. Ou você racionaliza o que está composto ou a razão se compõe a partir de você, e no segundo caso todas as plantas empoeiradas têm o verde mais urgente da vida: urgência por existir. Voo do pensamento pro momento presente: amor permanente. Como se eu não estivesse aqui de fato. Em arco-íris.
B r a y a n C a r v a l h o
domingo, 15 de novembro de 2009
Ensaio Sobre a Gastronomia
Quando ela chegou em casa, viu o marido com outra. Ali, na sala mesmo. Sobre o sofá, de três lugares - sofá de tecido! Pensou que poderia bater nele por aquilo, mas não. O sofá era detalhe. O sofá era detalhe. Ela era detalhe. O casamento era detalhe. O sexo, também detalhe. Assim como o emprego era detalhe, a traição e a aliança na mesa de centro eram detalhes.
De tanto detalhe, a imagem se compôs. A esposa pegou o enorme vaso de cera e deu com ele na cabeça do marido, quebrou o vaso, fez o marido sangrar no topo da cabeça e viu-o cair desacordado. A outra levantou-se assustada com tanta violência. Foi no que a esposa, dos estilhaços do ex-vaso, precipitou-se sobre a outra e perfurou sua bacia. A mulher caiu, tentou levantar, caiu de novo e ficou: chorando.
A esposa atravessou a sala e foi a cozinha. Pegou a maior faca da gaveta e uma tábua de carnes. Foi cortar cebolas, na desculpa de chorar em paz.
Brayan Carvalho
De tanto detalhe, a imagem se compôs. A esposa pegou o enorme vaso de cera e deu com ele na cabeça do marido, quebrou o vaso, fez o marido sangrar no topo da cabeça e viu-o cair desacordado. A outra levantou-se assustada com tanta violência. Foi no que a esposa, dos estilhaços do ex-vaso, precipitou-se sobre a outra e perfurou sua bacia. A mulher caiu, tentou levantar, caiu de novo e ficou: chorando.
A esposa atravessou a sala e foi a cozinha. Pegou a maior faca da gaveta e uma tábua de carnes. Foi cortar cebolas, na desculpa de chorar em paz.
Brayan Carvalho
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Notícia do dia 12/11/09
Engraçado. Engraçados, pra falar a verdade. O casal. Ela, pequenina, sentada assim como o marido, mal toca os pés no chão do trem. Mas cruzas as pernas finas de uma forma engraçada, é assim: ela as cruza normalmente, mas passa o pé da perna apoiada por detrás da perna de apoio. A (pouca) panturrilha é o que prende o pé ali. E o pé de apoio mal alcançando o chão, que engraçado. Chega a ser suave, de tão esforçado. O marido alcança sem problemas, confortavelmente. Joelhos afastados cerca de vinte centímetros um do outro, mãos entrelaçadas próximas ao sexo. De vez em quando, porém, as solta e coça, com a direita, o braço por debaixo da manga de sua camisa social completamente desabotoada. O tórax exposto revela sua idade: não tem menos de setenta anos.
Sua esposa idem. Percebe-se pelos braços, os tríceps cheios de dobras contra o seio. E é magra, a senhora. Mas idade é idade, baby. O buço escurecido por alguns pêlos está rendido, enrugado. Seus lábios são os mais finos que já vi. Mal abre a boca, exceto para bocejar, mostrando a língua incrivelmente ainda bastante rosada. Tem dentes. Pode ser dentadura, ok, mas os tem. Já o marido parece que não. Os lábios voltados para dentro são típicos de pessoas já sem seus dentes. Ele mantém sua boca entreaberta e ainda assim nada vejo. É um fosso, ou algo do tipo. A idade engoliu sua boca.
Ele de boné e barba por fazer; ela de brincos dourados e cabelos até os ombros, penteados para trás. Começam a conversar. Não sorriem, mas não estão brigando. É assunto de adultos. Devem estar juntos há um bom número de décadas, mas ainda permanecem atenciosos um com o outro. Ele a ouve falar com a boca aberta de criança de três meses de idade. Ela gesticula com as mãos trêmulas de idosa, aproximando-se do marido para facilitar o entendimento (o trem faz muito barulho movendo-se). Cessam a conversa de repente: ele olha ao redor incessantemente, mas numa calma absurda. Já viu de tudo, deve estar apenas procurando o que pode ter mudado. Ela fixa seu olhar num ponto qualquer do espaço e ali fica, como peixe dormindo. Mas está atenta, de uma forma tão sutil que só a experiência nos dá. Ele seca os lábios na manga da camisa, encarando a esposa que encara a paisagem, arrumando os cabelos como quem tivesse levado horas para armá-lo daquela forma.
Ele volta a entrelaçar as mãos entre as pernas. Não há pista alguma sobre seus nomes. Podem se chamar Zulmira e Adolfo ou mesmo Catarina e Jorge. De onde são? Pode ser tanto do Piauí quanto do Rio Grande do Sul, apesar de a esposa ter um tom de pele próximo ao de uma bala de caramelo. E Deus, como seu antebraço é fino! Só percebo isso agora, que ela ergueu um dos braços, segurando um dos ferros de apoio verticais do vagão. Ele nem tanto, é até bastante preenchido para alguém com sua idade. Idade de quem já teve de tudo, independente de ser rico ou pobre.
Permanecem calados. Falam bem pouco mesmo. Mas falar o quê? Para quê? Por quê? Nem escutando parecem que estão. Os olhos (de ambos, cansados) são o que estabelecem comunicação maior com o mundo. Eternamente marejados, os deles. Eternamente presentes. São avós, bisavós, quantos geraram? Para onde viajam? Que - pouquíssimos - assuntos são os seus? Ela fala a palavra "porta" junto a outras tantas irreconhecíveis. Só eles se entendem. Até que, prestando atenção numa conversa alheia sobre futebol, ele ri. Sem dentes mas não mostra a gengiva. Volta a ficar sério, desliga-se do assunto e volta a compor a mesma imagem inicial de ambos, o mesmo par de estátuas vivas & documento da vida em casal. As pernas dela cruzadas. Sua mãos sobre a coxa do marido. Ah, a cumplicidade!
Brayan Carvalho
Sua esposa idem. Percebe-se pelos braços, os tríceps cheios de dobras contra o seio. E é magra, a senhora. Mas idade é idade, baby. O buço escurecido por alguns pêlos está rendido, enrugado. Seus lábios são os mais finos que já vi. Mal abre a boca, exceto para bocejar, mostrando a língua incrivelmente ainda bastante rosada. Tem dentes. Pode ser dentadura, ok, mas os tem. Já o marido parece que não. Os lábios voltados para dentro são típicos de pessoas já sem seus dentes. Ele mantém sua boca entreaberta e ainda assim nada vejo. É um fosso, ou algo do tipo. A idade engoliu sua boca.
Ele de boné e barba por fazer; ela de brincos dourados e cabelos até os ombros, penteados para trás. Começam a conversar. Não sorriem, mas não estão brigando. É assunto de adultos. Devem estar juntos há um bom número de décadas, mas ainda permanecem atenciosos um com o outro. Ele a ouve falar com a boca aberta de criança de três meses de idade. Ela gesticula com as mãos trêmulas de idosa, aproximando-se do marido para facilitar o entendimento (o trem faz muito barulho movendo-se). Cessam a conversa de repente: ele olha ao redor incessantemente, mas numa calma absurda. Já viu de tudo, deve estar apenas procurando o que pode ter mudado. Ela fixa seu olhar num ponto qualquer do espaço e ali fica, como peixe dormindo. Mas está atenta, de uma forma tão sutil que só a experiência nos dá. Ele seca os lábios na manga da camisa, encarando a esposa que encara a paisagem, arrumando os cabelos como quem tivesse levado horas para armá-lo daquela forma.
Ele volta a entrelaçar as mãos entre as pernas. Não há pista alguma sobre seus nomes. Podem se chamar Zulmira e Adolfo ou mesmo Catarina e Jorge. De onde são? Pode ser tanto do Piauí quanto do Rio Grande do Sul, apesar de a esposa ter um tom de pele próximo ao de uma bala de caramelo. E Deus, como seu antebraço é fino! Só percebo isso agora, que ela ergueu um dos braços, segurando um dos ferros de apoio verticais do vagão. Ele nem tanto, é até bastante preenchido para alguém com sua idade. Idade de quem já teve de tudo, independente de ser rico ou pobre.
Permanecem calados. Falam bem pouco mesmo. Mas falar o quê? Para quê? Por quê? Nem escutando parecem que estão. Os olhos (de ambos, cansados) são o que estabelecem comunicação maior com o mundo. Eternamente marejados, os deles. Eternamente presentes. São avós, bisavós, quantos geraram? Para onde viajam? Que - pouquíssimos - assuntos são os seus? Ela fala a palavra "porta" junto a outras tantas irreconhecíveis. Só eles se entendem. Até que, prestando atenção numa conversa alheia sobre futebol, ele ri. Sem dentes mas não mostra a gengiva. Volta a ficar sério, desliga-se do assunto e volta a compor a mesma imagem inicial de ambos, o mesmo par de estátuas vivas & documento da vida em casal. As pernas dela cruzadas. Sua mãos sobre a coxa do marido. Ah, a cumplicidade!
Brayan Carvalho
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Espermo-poema
I
Porque a gente nunca sabe onde começa.
Assim vai, monta peça a peça e pensa:
"que merda é essa?", e se lança
pra ver se alcança o futuro no presente
ao passar pelo passado
mas cuidado!
Ele ainda não sabe como é ser
visto que mal chegou a nascer
e não se pode descobrir
se ele um dia será
ou se apenas seria.
Nasceu no meio da noite
pra se fazer valer ao meio-dia.
Ao mundo veio
com um sem-fim de veias
abertas pulsantes auto-suficientes,
um ser que é seio de seu ser
e veio como veio para se alimentar
do sentir, do saber - do próprio seio cear.
Bebe, se embriaga, fica leve
e o Diabo que o carregue
de mim,
que Deus já me rege.
II
Ponto. Ponto. Ponto. Ponto. Ponto.
Ponteiro........................................
O mundo inteiro despido
passa desapercebido
no corredor da maternidade;
e é carregado num colo feminino
que já faz meninos desde a mocidade;
e é nesse toque divino
com o que já foi tocado
que ele se percebe, matutino,
antecipando seu governo-estado-nação;
e são dois os leitos do rio
que devemos seguir sem feri-los;
e são dois os mamilos, os peitos,
vindos de uma mesma carne
- carneidoscópica -
que é córnea e que guia no sopro
que é córnea e que guia no sopro
que é córnea e que guia no sopro
III
Com o tato ele faz o contato.
No olfato percebe o fato.
Usa a visão para não
gastar sua fala
e na audição faz amarrá-la
à visa
de outro nome ainda escondido
mas que já se apresenta
tímido e contido:
com vida.
Como veio, está.
Um pouco fica mas logo muda
e comove
de como veio para como o ouvem,
que o louvem, o adorem,
que o carreguem no colo
por toda a praça do mundo
- os olhos do povo, Deus mais que profundo.
IV
Onomatopeizando
o mundo mundano
é que percebemos
o todo-engano,
o que perdemos.
Pois que perduraremos
como dissessem estar vivendo
em remendos de uma redoma de vidro,
pois que perduraremos
porque não somos os sonhos que teremos,
pois que perdoaremos
os equívocos, os mártires, os cristos
- e oremos, porque ainda somos pequenos.
V
Ouviu-se o primeiro batimento no berço
que ao bater se autoconstrói
passo a passo,
verso a verso,
sem nunca parecer que dói
o corpo tão frágil e terno
mas pronto a perder-se no mundo
da repetição,
das escrituras,
dos desalentos.
VI
Agora que o único é toda uma unidade
podemos dizer que úmida
é a data deste nascimento,
humilde ser sem qualquer vontade
à parte de todo acontecimento,
convertido da água pra insanidade
coagulada
coexistindo com o aborrecimento
- amamentando a chuva com poeira
como se o fizesse amiúde -
e humilhando-se ao levantar bandeira
de uma completa e sóbria infinitude.
Cadê suas faces para dar à tapa?
Nada se responde
em curiosa dor masoquista e anarquista,
não anda nesse bonde
porque não lhe compete
e antes que sua arte se mate
ele mira na testa do cervo
- atira e assegura a maldade
que motivo não há para ter medo
e esse é o seu segredo,
sua grade de ferro que isola
o mim do fora,
o futuro do agora.
VII
lá fora
agora
a hora travou
e o relógio caiu de podre
no chão coberto de aurora
agora
embora
não haja sucesso ou estrela
no céu repleto fora a fora
besteira
que porra
VIII
A noite é dos grilos:
melhor naão impedi-los.
Há sufoco na libertação
e não confunda, por Deus,
com libertinagem
ou falta de consideração
essa concha improvisada
que mar algum depositou
em caminhos mortais de homens mundanos.
Isto é prosa, é recurso, é caminho:
um bip e um chuá
embalados pra presente
em dia de domingo.
Devolve ao mar o mar numa garrafa,
deixa cair a madrugada
e sinta o fluxo dos sonhos em comunhão como se fosse a legítima força da natureza mesma que impressiona com resposta prática e apoteótica às perguntas que não são feitas mas estão pulsando sem explicação aparente para quem nunca alcançou o âmago de sua agonia enraizada como árvore centenária plantada no chão em que a noite nasce sempre inocente por causa do som da terra se expandindo como fosse o Universo observado e apenas por nós observado assim como o caminho desta solidão nostálgica foi encontrado através de um ai conjunto nascido ao mesmo tempo como um mantra na boca de todos na boca de todos na boca de todos na boca de todos na boca de todos na boca de:
Brayan Carvalho
Porque a gente nunca sabe onde começa.
Assim vai, monta peça a peça e pensa:
"que merda é essa?", e se lança
pra ver se alcança o futuro no presente
ao passar pelo passado
mas cuidado!
Ele ainda não sabe como é ser
visto que mal chegou a nascer
e não se pode descobrir
se ele um dia será
ou se apenas seria.
Nasceu no meio da noite
pra se fazer valer ao meio-dia.
Ao mundo veio
com um sem-fim de veias
abertas pulsantes auto-suficientes,
um ser que é seio de seu ser
e veio como veio para se alimentar
do sentir, do saber - do próprio seio cear.
Bebe, se embriaga, fica leve
e o Diabo que o carregue
de mim,
que Deus já me rege.
II
Ponto. Ponto. Ponto. Ponto. Ponto.
Ponteiro........................................
O mundo inteiro despido
passa desapercebido
no corredor da maternidade;
e é carregado num colo feminino
que já faz meninos desde a mocidade;
e é nesse toque divino
com o que já foi tocado
que ele se percebe, matutino,
antecipando seu governo-estado-nação;
e são dois os leitos do rio
que devemos seguir sem feri-los;
e são dois os mamilos, os peitos,
vindos de uma mesma carne
- carneidoscópica -
que é córnea e que guia no sopro
que é córnea e que guia no sopro
que é córnea e que guia no sopro
III
Com o tato ele faz o contato.
No olfato percebe o fato.
Usa a visão para não
gastar sua fala
e na audição faz amarrá-la
à visa
de outro nome ainda escondido
mas que já se apresenta
tímido e contido:
com vida.
Como veio, está.
Um pouco fica mas logo muda
e comove
de como veio para como o ouvem,
que o louvem, o adorem,
que o carreguem no colo
por toda a praça do mundo
- os olhos do povo, Deus mais que profundo.
IV
Onomatopeizando
o mundo mundano
é que percebemos
o todo-engano,
o que perdemos.
Pois que perduraremos
como dissessem estar vivendo
em remendos de uma redoma de vidro,
pois que perduraremos
porque não somos os sonhos que teremos,
pois que perdoaremos
os equívocos, os mártires, os cristos
- e oremos, porque ainda somos pequenos.
V
Ouviu-se o primeiro batimento no berço
que ao bater se autoconstrói
passo a passo,
verso a verso,
sem nunca parecer que dói
o corpo tão frágil e terno
mas pronto a perder-se no mundo
da repetição,
das escrituras,
dos desalentos.
VI
Agora que o único é toda uma unidade
podemos dizer que úmida
é a data deste nascimento,
humilde ser sem qualquer vontade
à parte de todo acontecimento,
convertido da água pra insanidade
coagulada
coexistindo com o aborrecimento
- amamentando a chuva com poeira
como se o fizesse amiúde -
e humilhando-se ao levantar bandeira
de uma completa e sóbria infinitude.
Cadê suas faces para dar à tapa?
Nada se responde
em curiosa dor masoquista e anarquista,
não anda nesse bonde
porque não lhe compete
e antes que sua arte se mate
ele mira na testa do cervo
- atira e assegura a maldade
que motivo não há para ter medo
e esse é o seu segredo,
sua grade de ferro que isola
o mim do fora,
o futuro do agora.
VII
lá fora
agora
a hora travou
e o relógio caiu de podre
no chão coberto de aurora
agora
embora
não haja sucesso ou estrela
no céu repleto fora a fora
besteira
que porra
VIII
A noite é dos grilos:
melhor naão impedi-los.
Há sufoco na libertação
e não confunda, por Deus,
com libertinagem
ou falta de consideração
essa concha improvisada
que mar algum depositou
em caminhos mortais de homens mundanos.
Isto é prosa, é recurso, é caminho:
um bip e um chuá
embalados pra presente
em dia de domingo.
Devolve ao mar o mar numa garrafa,
deixa cair a madrugada
e sinta o fluxo dos sonhos em comunhão como se fosse a legítima força da natureza mesma que impressiona com resposta prática e apoteótica às perguntas que não são feitas mas estão pulsando sem explicação aparente para quem nunca alcançou o âmago de sua agonia enraizada como árvore centenária plantada no chão em que a noite nasce sempre inocente por causa do som da terra se expandindo como fosse o Universo observado e apenas por nós observado assim como o caminho desta solidão nostálgica foi encontrado através de um ai conjunto nascido ao mesmo tempo como um mantra na boca de todos na boca de todos na boca de todos na boca de todos na boca de todos na boca de:
Brayan Carvalho
domingo, 25 de outubro de 2009
Arquivos shakespeareanos secretos
De: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Enviada: sexta-feira, 25 de abril de 1591 18:47:52
Para: Romeu (romeu@montecchio.com)
Assunto: Rosalina! xD
-
fala aí romeu, vi a rosalina hoje de tarde e ela me disse que ta querendo ver se fala contigo sábado agora ^^ diz ela que os pais vão visitar uma tia fora de Verona e talvez só voltem no domingo de manhã, rs.
AEEEEEEE moleque! \o/ rsrsrsrs
______________________________
De: Romeu (romeu@montecchio.com)
Enviada: sexta-feira, 25 de abril de 1591 23:32:24
Para: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Assunto: RE: Rosalina!
-
mas cara, amanhã é festa dos capuleto lá... lembra que o mercúcio falou com a gente semana passada? se eu não for ele vai ficar cheio de gracinha pra cima de mim, tu sabe como ele é ¬¬ e a rosalina também é toda fresca, ela fica só instigando mas não dá em nada, é toda insegura... se tu ver ela até amanhã de noite fala pra ela que na~o vai dar, diz que eu to triste pra caramba por isso mas é que minha família só tem psicopata, huauhahuahua!
abraço, primo!
______________________________
De: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Enviada: domingo, 27 de abril de 1591 12:05:19
Para: Romeu (romeu@montecchio.com)
Assunto: Cadê tu, cara????
-
romeu, cara, que houve ontem que tu ficou lá nos capuletos até altas horas? tá maluco, véio, os caras são mó violentos e teu pai não ia gostar de saber que você fica indo na festa do grande inimigo dele... se dá merda lá e chega aos ouvidos do príncipe a coisa fica feia é pro teu pai! o mercúcio que é maluco, eu só ando com vocês ainda porque a gente é primo e eu considero o mercucio pra caramba e tal, porque pqp hein! --'
vê se me responde, seu doido!
______________________________
De: Romeu (romeu@montecchio.com)
Enviada: domingo, 27 de abril de 1591 15:40:02
Para: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Assunto: caaaaaaaaaaaara!!!11!
-
maluuuuco, cê não vai acreditar!! caraca primo, a filha do capuleto é muito gata! tipo, muito mesmo! a garota deve ter a minha idade, sei lá, e é muito simpática também! véio, a gente se beijou, tipo que rolou uma dança lá e ela saiu meio tonta pra beber alguma coisa, daí eu fui atrás (de máscara, claro) e cara, eu fiquei todo bobo perto dela, a menina é muito linda, toda perfeitinha, toda meiga, não aguentei, tive que beijar!!! só não deu pra ficar muito tempo lá porque a ama dela apareceu e tal, mas eu disfarcei numa boa, fingi que nem era comigo rsrsrsrs...
aí encontrei com vocês do lado de fora e tal, depois sumi de novo, lembra? tipo, eu escalei o muro da casa dela e falei com ela, olha que doideira que me deu, kkkkkkk, mas é que eu tinha que ir lá cara, eu precisava falar com ela direito, calmamente... benvólio, acho que gamei o.Õ e a merda é que é filha do capuleto, aí ferra tudo. mas ela é pra casar, de boa, nem que seja escondido!
aí, o nome dela é Julieta! bonito, né não? *.*
abração o/
______________________________
De: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Enviada: segunda-feira, 28 de abril de 1591 22:00:38
Para: Romeu (romeu@montecchio.com)
Assunto: RE: caaaaaaaaaaaara!!!11!
-
aí, namoral romeu, to sem palavras contigo ¬¬ continua com isso e cê ta morto, mano, tu e essa tua Julieta aí. quando a rosalina souber disso vai rir da tua desgraça e eu vou dar razão!
só faz merda hein, pelamor!!!!
Enviada: sexta-feira, 25 de abril de 1591 18:47:52
Para: Romeu (romeu@montecchio.com)
Assunto: Rosalina! xD
-
fala aí romeu, vi a rosalina hoje de tarde e ela me disse que ta querendo ver se fala contigo sábado agora ^^ diz ela que os pais vão visitar uma tia fora de Verona e talvez só voltem no domingo de manhã, rs.
AEEEEEEE moleque! \o/ rsrsrsrs
______________________________
De: Romeu (romeu@montecchio.com)
Enviada: sexta-feira, 25 de abril de 1591 23:32:24
Para: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Assunto: RE: Rosalina!
-
mas cara, amanhã é festa dos capuleto lá... lembra que o mercúcio falou com a gente semana passada? se eu não for ele vai ficar cheio de gracinha pra cima de mim, tu sabe como ele é ¬¬ e a rosalina também é toda fresca, ela fica só instigando mas não dá em nada, é toda insegura... se tu ver ela até amanhã de noite fala pra ela que na~o vai dar, diz que eu to triste pra caramba por isso mas é que minha família só tem psicopata, huauhahuahua!
abraço, primo!
______________________________
De: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Enviada: domingo, 27 de abril de 1591 12:05:19
Para: Romeu (romeu@montecchio.com)
Assunto: Cadê tu, cara????
-
romeu, cara, que houve ontem que tu ficou lá nos capuletos até altas horas? tá maluco, véio, os caras são mó violentos e teu pai não ia gostar de saber que você fica indo na festa do grande inimigo dele... se dá merda lá e chega aos ouvidos do príncipe a coisa fica feia é pro teu pai! o mercúcio que é maluco, eu só ando com vocês ainda porque a gente é primo e eu considero o mercucio pra caramba e tal, porque pqp hein! --'
vê se me responde, seu doido!
______________________________
De: Romeu (romeu@montecchio.com)
Enviada: domingo, 27 de abril de 1591 15:40:02
Para: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Assunto: caaaaaaaaaaaara!!!11!
-
maluuuuco, cê não vai acreditar!! caraca primo, a filha do capuleto é muito gata! tipo, muito mesmo! a garota deve ter a minha idade, sei lá, e é muito simpática também! véio, a gente se beijou, tipo que rolou uma dança lá e ela saiu meio tonta pra beber alguma coisa, daí eu fui atrás (de máscara, claro) e cara, eu fiquei todo bobo perto dela, a menina é muito linda, toda perfeitinha, toda meiga, não aguentei, tive que beijar!!! só não deu pra ficar muito tempo lá porque a ama dela apareceu e tal, mas eu disfarcei numa boa, fingi que nem era comigo rsrsrsrs...
aí encontrei com vocês do lado de fora e tal, depois sumi de novo, lembra? tipo, eu escalei o muro da casa dela e falei com ela, olha que doideira que me deu, kkkkkkk, mas é que eu tinha que ir lá cara, eu precisava falar com ela direito, calmamente... benvólio, acho que gamei o.Õ e a merda é que é filha do capuleto, aí ferra tudo. mas ela é pra casar, de boa, nem que seja escondido!
aí, o nome dela é Julieta! bonito, né não? *.*
abração o/
______________________________
De: Benvólio (benvolio@montecchio.com)
Enviada: segunda-feira, 28 de abril de 1591 22:00:38
Para: Romeu (romeu@montecchio.com)
Assunto: RE: caaaaaaaaaaaara!!!11!
-
aí, namoral romeu, to sem palavras contigo ¬¬ continua com isso e cê ta morto, mano, tu e essa tua Julieta aí. quando a rosalina souber disso vai rir da tua desgraça e eu vou dar razão!
só faz merda hein, pelamor!!!!
sábado, 24 de outubro de 2009
Bomdia
Lara quem criou a palavra. E sem querer (ou querendo, vai saber) criou um novo mundo, como fosse fácil. Mas cá entre nós, deve ter sido, porque é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre pra chegar ao ponto de pronunciar tal palavra. Bomdia é a substituta de todas as máximas que abriram todos os portões para a humanidade, das artes às ciências passando pelas descobertas e invenções e reinvenções e bireinvenções de toda a civilização. Bomdia é palavra pra quem ama - o pai a mãe a família os amigos o amor da vida as coisas do mundo as coisas da vida. Caleidoscopicamente falando, assim mesmo.
Bomdia é um "BOOM!"dia, é palavra forte capaz de levar pessoas desavisadas às lágrimas, desacostumadas que todas estão a... É que não se olha mais para o lado, e bomdia é o giro trezentos e sessenta graus voluntário, sem intenções cinematrográficas - é documental, baby. Bomdia é escutar as pessoas enquanto se fala com elas, é distrubuir abraços em ouvidos sem pedir nada em troca. Bomdia é doação por excelência.
Sonho premonitório com final feliz: bomdia. Sonho de consumo dos sonhadores - realizadores em potencial. O amém dos populares, a boa nova dos lúcidos, a fibra dos laços que nos unem, a preliminar do gozo de existência, o recordista educado das competições educadas entre expressões de educação. Mas nunca redundante como essa última frase. Bomdia é da moda Primavera/Verão e da Outono/Inverno também, top de linha, uma belezura. Peça indispensável no vestuário espiritual.
À noite: bomdia. Bomdia vinte e quatro horas por dia: seu conselho é: pra te ver feliz. É a palavra que se diz ao fim da hipnose, quando o mesmerizado deve despertar, diz-se bomdia para o homem hipnotizado pelo cimento que não deseja nada; para a criança que está perdendo a infância; para os jovens fingindo aprender e aprendendo sem saber; para o tiozinho na praça com tanta história pra contar, tanta história que ninguém quer ouvir. E bomdia é a chance que se dá ao senhor, aos jovens, às crianças, ao homem da cidade. Todo mundo. Todo o mundo.
Bomdia é o pão de cada dia da felicidade.
Brayan Carvalho
Bomdia é um "BOOM!"dia, é palavra forte capaz de levar pessoas desavisadas às lágrimas, desacostumadas que todas estão a... É que não se olha mais para o lado, e bomdia é o giro trezentos e sessenta graus voluntário, sem intenções cinematrográficas - é documental, baby. Bomdia é escutar as pessoas enquanto se fala com elas, é distrubuir abraços em ouvidos sem pedir nada em troca. Bomdia é doação por excelência.
Sonho premonitório com final feliz: bomdia. Sonho de consumo dos sonhadores - realizadores em potencial. O amém dos populares, a boa nova dos lúcidos, a fibra dos laços que nos unem, a preliminar do gozo de existência, o recordista educado das competições educadas entre expressões de educação. Mas nunca redundante como essa última frase. Bomdia é da moda Primavera/Verão e da Outono/Inverno também, top de linha, uma belezura. Peça indispensável no vestuário espiritual.
À noite: bomdia. Bomdia vinte e quatro horas por dia: seu conselho é: pra te ver feliz. É a palavra que se diz ao fim da hipnose, quando o mesmerizado deve despertar, diz-se bomdia para o homem hipnotizado pelo cimento que não deseja nada; para a criança que está perdendo a infância; para os jovens fingindo aprender e aprendendo sem saber; para o tiozinho na praça com tanta história pra contar, tanta história que ninguém quer ouvir. E bomdia é a chance que se dá ao senhor, aos jovens, às crianças, ao homem da cidade. Todo mundo. Todo o mundo.
Bomdia é o pão de cada dia da felicidade.
Brayan Carvalho
domingo, 11 de outubro de 2009
dialética da formação
meia-noite
os olhos recurvos
os sonhos retintos
na sala apagada
_____de projeção
as vozes brincalhonas dos meninos
que fui
e que hoje tilintam
imemoriais metais
são solidão simplificada
figurinhas de ciranda
__________________ausentes
do meu álbum
debaixo
do meu primeiro casaquinho
na terceira de sete
gavetas
- de repente sei que não
não posso
justificar em alguma
_________travessura
do presente
o fato
de ter sido
________________esquecido
por mim mesmo.
Brayan Carvalho
os olhos recurvos
os sonhos retintos
na sala apagada
_____de projeção
as vozes brincalhonas dos meninos
que fui
e que hoje tilintam
imemoriais metais
são solidão simplificada
figurinhas de ciranda
__________________ausentes
do meu álbum
debaixo
do meu primeiro casaquinho
na terceira de sete
gavetas
- de repente sei que não
não posso
justificar em alguma
_________travessura
do presente
o fato
de ter sido
________________esquecido
por mim mesmo.
Brayan Carvalho
sábado, 10 de outubro de 2009
Polifemo D.C.
I
Tão breve a brisa
tão longe o leste
tão forte a morte
tão muda a fonte
tão alto o monte
tão só, gigante,
tal nunca antes.
Teu olho cego
teu leigo medo
tua voz incerta
tua dor no peito
teu medo incauto
teu nome, aceito,
teus grandes feitos.
Teu sonho, um clone,
tão clap-clap
veloz galope
sem ter claquete
ou envelope
você, ciclope,
grande ciclone.
II
Em sua ilha à noite, derrotado,
qual sua verdade, una e tão sem calma,
se esconde, ridicularizado,
o ciclope, a quem ninguém bate palmas,
que já não basta, memória salva,
lembrares só, de um tempo tão errado
e remoto
pois se o mundo jaz morto
não voltas ao passado
nem será tão ingrato
se então ficares louco
e desmemoriado
no terremoto
dos outros corpos
catequizados
humanizados
pro teu engano
- teu desespero -
que, tão profano,
se revelou estéril de segredos
e trindades sagradas
sem heróis gregos
na
so
li
dão
não
ha
ve
rá
III
(nada)
Brayan Carvalho
Tão breve a brisa
tão longe o leste
tão forte a morte
tão muda a fonte
tão alto o monte
tão só, gigante,
tal nunca antes.
Teu olho cego
teu leigo medo
tua voz incerta
tua dor no peito
teu medo incauto
teu nome, aceito,
teus grandes feitos.
Teu sonho, um clone,
tão clap-clap
veloz galope
sem ter claquete
ou envelope
você, ciclope,
grande ciclone.
II
Em sua ilha à noite, derrotado,
qual sua verdade, una e tão sem calma,
se esconde, ridicularizado,
o ciclope, a quem ninguém bate palmas,
que já não basta, memória salva,
lembrares só, de um tempo tão errado
e remoto
pois se o mundo jaz morto
não voltas ao passado
nem será tão ingrato
se então ficares louco
e desmemoriado
no terremoto
dos outros corpos
catequizados
humanizados
pro teu engano
- teu desespero -
que, tão profano,
se revelou estéril de segredos
e trindades sagradas
sem heróis gregos
na
so
li
dão
não
ha
ve
rá
III
(nada)
Brayan Carvalho
Sobre a Espera
Aqui. Reciclando qualquer segundinho daqueles nossos naqueles nossos momentos, requentando os cafés que só eu bebo, levando ao congelador e tirando do mesmo toda tarde os pães de queijo mordiscados na pontinha em tarde fria de domingo pela manhã: souvenirs. Nosso café da manhã. Nosso sofá de três lugares, dois corpos e uma única vontade. A foto no assento do ônibus, o dia nublado lá fora mas claro com raios pálidos de sol rasgando o cinza das nuvens na harmonia absurda da Natureza. Sua singeleza tímida, sua capacidade reflexiva límpida e enfeitada por alguns gramas de perplexidade. A síntese no sorriso, na ruga de canto de boca que ensaia perfomance algumas décadas mais tarde, o sucesso de uma piada infame fazendo escola nos seus músculos faciais e nas suas sinapses nervosas, suas mãos pequenas sendo levadas automaticamente ao rosto pra abafar o som da gargalhada que poderia incomodar o moço dormindo três assentos mais à frente àquela hora tão incomum.
Aqui. Sorvendo maresias distantes ao longo dos dias, comprando balas e as mordendo e as engolindo cheias de pedaços verdes azuis vermelhos quais as cores das balas que compro? Tomando bondes errados nas direções opostas. Mas bondes não existem, e concluo que vou só, que vou by myself. Saudade globalizada, mas ainda sem tradução. E o mundo é grande e não é redondo e caramba, estivemos juntos? Ou é isso a antecipação de uma semana que vem, de um mês que vem, de um ano que vem, de uma vida que vem? Dentro da vida mesma? Todo dia é uma solitária fotografia. E isso está ficando muito óbvio, mas é que esgotei a linguagem - não a do mundo, mas a minha neste momento. Falha humana, minha que sou humano. E morro por ela (colocar o nome aqui), morro de espera. Pera: para.
Lá. Mistério, meu coração, a ressonância de uma certeza discreta. De uma certeza que é reticência pro mundo, mas exclamação pra mim. E que por isso resume, faz ser bastante, torna suficiente todo e qualquer espaço em branco. Porque está além. Numa esfera transcendental, que vai nos levantar e vamos levitar e levitar e levitar até o tudo se tornar __________.
Brayan Carvalho
Aqui. Sorvendo maresias distantes ao longo dos dias, comprando balas e as mordendo e as engolindo cheias de pedaços verdes azuis vermelhos quais as cores das balas que compro? Tomando bondes errados nas direções opostas. Mas bondes não existem, e concluo que vou só, que vou by myself. Saudade globalizada, mas ainda sem tradução. E o mundo é grande e não é redondo e caramba, estivemos juntos? Ou é isso a antecipação de uma semana que vem, de um mês que vem, de um ano que vem, de uma vida que vem? Dentro da vida mesma? Todo dia é uma solitária fotografia. E isso está ficando muito óbvio, mas é que esgotei a linguagem - não a do mundo, mas a minha neste momento. Falha humana, minha que sou humano. E morro por ela (colocar o nome aqui), morro de espera. Pera: para.
Lá. Mistério, meu coração, a ressonância de uma certeza discreta. De uma certeza que é reticência pro mundo, mas exclamação pra mim. E que por isso resume, faz ser bastante, torna suficiente todo e qualquer espaço em branco. Porque está além. Numa esfera transcendental, que vai nos levantar e vamos levitar e levitar e levitar até o tudo se tornar __________.
Brayan Carvalho
Microwave
Olho pra você e me sinto como quem não sabe de si. Há um quê de esquecimento quando estamos frente a frente, um descontentamento repentino. Estamos separados pela Física, eu na obviedade que é meu fado e minha brisa e não tenho tantos segredos. Você mascara, dissumula, você adiciona camadas diferentes a diferentes situações. Compram, usam, cuidam de você, todos tão acostumados, todos tão atuais. Seu amor é nocivo que faz bem. Sua história é de repente.
Chegamos ao ponto em que preciso de você. E como tocar, como sentir segurança em sua boca? Por onde devo deixar o dedo deslizar em seu corpo pra que eu me sinta satisfeito? E me sentirei assim, afinal?, já que não sei as razões que lhe movem? Posso me alimentar das coisas que você me oferece sem temer a enganação? Você é uma pergunta centenária e vive em minha casa, a 5 metros de minha cama - eu que sou tão resposta, todo afirmação, tanto sim - esquentando pães, milhos, batatas, águas, minha cabeça. Por que de repente preciso? Bah, que impreciso, isso.
Tudo tão de repente me faz repentinamente a onda refletida nesse romance viniciano pós-moderno no qual eu sou a garota correndo a caminho do mar e você é o sol. Que não está lá. Mas queima. E o mundo que gira é o prato sob meus pés, recebendo e repelindo, recebendo e repelindo, recebendo e repelindo. Que lindo. Que mágico. Um forno. Você. Eu. Pra onde olhar quando você avisa que terminou? Abro a porta, projeto a mão adiante e não sei o que você pode fazer com ela. Peço licença como quem se ajoelha frente a um crucifixo. Mas não tenho respeito; tenho medo.
Brayan Carvalho
Chegamos ao ponto em que preciso de você. E como tocar, como sentir segurança em sua boca? Por onde devo deixar o dedo deslizar em seu corpo pra que eu me sinta satisfeito? E me sentirei assim, afinal?, já que não sei as razões que lhe movem? Posso me alimentar das coisas que você me oferece sem temer a enganação? Você é uma pergunta centenária e vive em minha casa, a 5 metros de minha cama - eu que sou tão resposta, todo afirmação, tanto sim - esquentando pães, milhos, batatas, águas, minha cabeça. Por que de repente preciso? Bah, que impreciso, isso.
Tudo tão de repente me faz repentinamente a onda refletida nesse romance viniciano pós-moderno no qual eu sou a garota correndo a caminho do mar e você é o sol. Que não está lá. Mas queima. E o mundo que gira é o prato sob meus pés, recebendo e repelindo, recebendo e repelindo, recebendo e repelindo. Que lindo. Que mágico. Um forno. Você. Eu. Pra onde olhar quando você avisa que terminou? Abro a porta, projeto a mão adiante e não sei o que você pode fazer com ela. Peço licença como quem se ajoelha frente a um crucifixo. Mas não tenho respeito; tenho medo.
Brayan Carvalho
domingo, 20 de setembro de 2009
Justi (ça) Fic(a/ativa(~)s
É que estas noites deixam meus olhos com ares de mar, com mares de ares marinheiros, perdidos inteiros neste sonhar de mares inteiros batendo a beira de mim, em beira de praia calada e cheia de sussurros destes fantasmas inseguros, tão próximos amantes do fim!
É que assim, de braços dados com eles, pego a braçadas as estradas mudas do mundo, em olhares fundos dos mares engolindo as estradas, os pecados de beira de rua, os segredos pescados das bocas deles para meus ouvidos: meus fantasmas, esquecidos, brotam tulipas azuis das bocas, flores que voam como moscas, que são palavras inaceitas, com gosto de sica, escorrendo feito agua de bica impune!
Aceito! Meu dedo aliançado com toda incerteza: uma grinalda de despesas despede-me das certezas vulgares que me afastam dos teus olhos, minha querida vida frívola! Prometo amar-te, não caber-te em sonetos, prometo porres perfeitos de belos luares de linho, com gosto de vinho derramado em mares...
Perco tudo - eu sou um arremedo quixotesco com dedos de pianista de teclas mudas- e não tenho nada mais que antes não tinha!: confesso-me, professo-me, prometo-me: sou de tal forma um arremedo que imito a mim mesmo para no fim, atirar a eso estes segredos de mim!
Lá fora sussurram umas verdades da boca dos outros, pelos quintais dos poucos homens que não tem nada mais do que têm de verdade: dialética poética da certeza! Por sobre a mesa, sirvo minha vida: prato frio sem requintes de ser quente!
Ainda me perco numa noite destas, ainda reconheço as brechas das gargantas dos meus fantasmas!!!
Eduardo Martins
É que assim, de braços dados com eles, pego a braçadas as estradas mudas do mundo, em olhares fundos dos mares engolindo as estradas, os pecados de beira de rua, os segredos pescados das bocas deles para meus ouvidos: meus fantasmas, esquecidos, brotam tulipas azuis das bocas, flores que voam como moscas, que são palavras inaceitas, com gosto de sica, escorrendo feito agua de bica impune!
Aceito! Meu dedo aliançado com toda incerteza: uma grinalda de despesas despede-me das certezas vulgares que me afastam dos teus olhos, minha querida vida frívola! Prometo amar-te, não caber-te em sonetos, prometo porres perfeitos de belos luares de linho, com gosto de vinho derramado em mares...
Perco tudo - eu sou um arremedo quixotesco com dedos de pianista de teclas mudas- e não tenho nada mais que antes não tinha!: confesso-me, professo-me, prometo-me: sou de tal forma um arremedo que imito a mim mesmo para no fim, atirar a eso estes segredos de mim!
Lá fora sussurram umas verdades da boca dos outros, pelos quintais dos poucos homens que não tem nada mais do que têm de verdade: dialética poética da certeza! Por sobre a mesa, sirvo minha vida: prato frio sem requintes de ser quente!
Ainda me perco numa noite destas, ainda reconheço as brechas das gargantas dos meus fantasmas!!!
Eduardo Martins
sábado, 19 de setembro de 2009
Esmolas, minhas, esmolas...
À beira dos palcos umas luzes falam luxuosas como rainhas um linguajar muito arquétipo, um silêncio caótico, patético...Mas eu, muito longe, no muro alto na fronte do palco, sigo cego, ensurdeço as lâmpadas soltas pelas calçadas de gente passando esquecida de ser gente, detida, parada, rompida em beira de estrada de si, pedindo encarecida uma mão sobre a ferida de existir diferente das luzes coroadas, coronárias, abertas, sepulcárias...
Os sons secos saem sempre das bolsas soberbas, sem nada mais que um pouco: agradecimento prático de antes da chuva da tarde... Sorrio o gosto do pão quente e vazio entre os dentes, sentindo o sal do pão na calçada fria... Fim de dia, fim de tarde, eu uma pobre tempestade cancelada à luz do dia!
Alto de palco, máscara quebrada, mas de ouro, mais flores, ma(i)s nada: vitória compulsiva dos grandes artistas, rostos entre letras de revistas, rostos entre rostos das mulheres da platéia, aclamação ordinária das damas velhas, rolar pela boca das jovens línguas: declarações, aclamações: Salva de palmas, pelas ressalvas da máscara morta, salvem as palmas a artéria aorta dos palcos cegos, altos, sem ter tempestades...
Se me perguntam se eu tenho perdas, perdas não há quando haver não dá asas para tudo e embala em plumas as pobres brumas do nada...Quem leva as chuvas pelas as estradas são os ventos, são os ventos, são zéfiros detentos em antigas moradas...
Eduardo Martins
Os sons secos saem sempre das bolsas soberbas, sem nada mais que um pouco: agradecimento prático de antes da chuva da tarde... Sorrio o gosto do pão quente e vazio entre os dentes, sentindo o sal do pão na calçada fria... Fim de dia, fim de tarde, eu uma pobre tempestade cancelada à luz do dia!
Alto de palco, máscara quebrada, mas de ouro, mais flores, ma(i)s nada: vitória compulsiva dos grandes artistas, rostos entre letras de revistas, rostos entre rostos das mulheres da platéia, aclamação ordinária das damas velhas, rolar pela boca das jovens línguas: declarações, aclamações: Salva de palmas, pelas ressalvas da máscara morta, salvem as palmas a artéria aorta dos palcos cegos, altos, sem ter tempestades...
Se me perguntam se eu tenho perdas, perdas não há quando haver não dá asas para tudo e embala em plumas as pobres brumas do nada...Quem leva as chuvas pelas as estradas são os ventos, são os ventos, são zéfiros detentos em antigas moradas...
Eduardo Martins
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Criacionismo
Deus criou o mundo em seis dias, depois olhou, cansou no sétimo, fingiu que era bom e bebeu um gole arquétipo do primeiro motivo vão: o homem, cidra da serpente! De repente, envenenado e incoerente, caiu arfante feito arcano gigante no chão serpenteando feito serpente em ano chinês!
Era o fim, era tarde, eram três horas da tarde e um Cristo covarde chorou ateu e são! São Cipriano, mago profano, abençoa este estigma de meu irmão de ciência, abençoa a indescência deste povo que, no mais, é irmão de Barrabás, é antraz das palavras, é sangue em estradas sagradas de Satanás (sangradas, além do mais, da coroa que faz chover a garoa de morrer sem pecados, sem humanos atos que te livrem de ser menos que mais)!
Vaga pela vela, fogo informe de Joana D'arc, doce arcanjo, faz crer que é uniforme o que na verdade te consome, mostra que a morte é obra-prima irmã do homem!
Eduardo Martins
Era o fim, era tarde, eram três horas da tarde e um Cristo covarde chorou ateu e são! São Cipriano, mago profano, abençoa este estigma de meu irmão de ciência, abençoa a indescência deste povo que, no mais, é irmão de Barrabás, é antraz das palavras, é sangue em estradas sagradas de Satanás (sangradas, além do mais, da coroa que faz chover a garoa de morrer sem pecados, sem humanos atos que te livrem de ser menos que mais)!
Vaga pela vela, fogo informe de Joana D'arc, doce arcanjo, faz crer que é uniforme o que na verdade te consome, mostra que a morte é obra-prima irmã do homem!
Eduardo Martins
domingo, 30 de agosto de 2009
Seis cachorros, três cadelas, trinta e dois feirantes e um menino chamado José
A cidade inteira chora um pouco:
Uma criança morta na rua da feira, perto de comida, já tinha um pão velho na mão quando assassinou-se! Verdades também são crianças de joelhos mortos!
A cidade inteira correu, como sempre, no sempre parado e os cachorros tiveram o que comer de verdade na rua da feira: sem bagaços, a carne era fresca e dura e magra, mas já tinha vermes!
Não houve quem reclamasse da mancha de sangue no chão: as pessoas souberam por uma vez que eram perecíveis e depois a memória pereceu velha: depois de correr para dentro de si mesma e assassinar-se!
Eduardo Martins
Uma criança morta na rua da feira, perto de comida, já tinha um pão velho na mão quando assassinou-se! Verdades também são crianças de joelhos mortos!
A cidade inteira correu, como sempre, no sempre parado e os cachorros tiveram o que comer de verdade na rua da feira: sem bagaços, a carne era fresca e dura e magra, mas já tinha vermes!
Não houve quem reclamasse da mancha de sangue no chão: as pessoas souberam por uma vez que eram perecíveis e depois a memória pereceu velha: depois de correr para dentro de si mesma e assassinar-se!
Eduardo Martins
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Quantos...
Olhava para a mesa em uma certa dúvida de sempre: se sempre fosse assim um espaço plano, o nada seria a queda, mas se o nada fosse, não seria nada...Divagações, apontamentos inúteis, eram um bom passatempo ao menos. O importante é que pensava nela e só conseguia vê-la em nuances de versos, por detrás das rimas: estes tempos que passam sozinhos versam sempre uns bordados belos de palavras: para ele eram bordados desiguais e belos, vermelho sangue dos cabelos dela...
Dos cabelos não esquecia: pôr de sol sempre pondo em semfim de firmamento, como se fossem os olhos dela, os olhos dela assim: astro-i-lógicos em madrugada pele branca e morna!
Como queria que amanhecesse assim, aos poucos, em sua pele, que deitassem sobre ele aquelas brumas quentes e que aquela dúvida que ela tinha estivesse tombada no chão frio dos palcos: se toda a dúvida fosse mentira seria uma bela atuação sem cortes... Coragem dos heróis mascarados dos quadrinhos...Mas os heróis sempre morrem míticos e mudos como o h de presságio...
Ela já corria toda pelo seu sangue, redividia as veias, resfacelava a carne, tingia vermelho o sangue e as paredes dele com seu nome: mesmo quieta e calada reverberava-se em eco eterno! Como o mundo é vazio sem ela, como ecoa ela em todo vazio, enchendo tudo em enchurradas de março!
Quantos anos dormem em um dia sem ela? Quantos sonambulam burlando o sono? Quantos têm nanose de minutos?
A mesa continua toda e parada, pelos pés dela escorre um nada que pensei que enchesse tudo, já não é março, mas uma chuva afina a realidade...a tarde talvez não venha vermelha, mas fria! Ainda há um dia acabando-se em versos por ela e eu, por dentro, escorro todo em vermelho!
Eduardo Martins
Dos cabelos não esquecia: pôr de sol sempre pondo em semfim de firmamento, como se fossem os olhos dela, os olhos dela assim: astro-i-lógicos em madrugada pele branca e morna!
Como queria que amanhecesse assim, aos poucos, em sua pele, que deitassem sobre ele aquelas brumas quentes e que aquela dúvida que ela tinha estivesse tombada no chão frio dos palcos: se toda a dúvida fosse mentira seria uma bela atuação sem cortes... Coragem dos heróis mascarados dos quadrinhos...Mas os heróis sempre morrem míticos e mudos como o h de presságio...
Ela já corria toda pelo seu sangue, redividia as veias, resfacelava a carne, tingia vermelho o sangue e as paredes dele com seu nome: mesmo quieta e calada reverberava-se em eco eterno! Como o mundo é vazio sem ela, como ecoa ela em todo vazio, enchendo tudo em enchurradas de março!
Quantos anos dormem em um dia sem ela? Quantos sonambulam burlando o sono? Quantos têm nanose de minutos?
A mesa continua toda e parada, pelos pés dela escorre um nada que pensei que enchesse tudo, já não é março, mas uma chuva afina a realidade...a tarde talvez não venha vermelha, mas fria! Ainda há um dia acabando-se em versos por ela e eu, por dentro, escorro todo em vermelho!
Eduardo Martins
Haicaix
roupa no varal
secando ao vento
e o sol soprando
________
morreu de fome
durante a guerra:
foi comer terra.
________
boneca morta
de olho aberto
- destino incerto
Brayan Carvalho
secando ao vento
e o sol soprando
________
morreu de fome
durante a guerra:
foi comer terra.
________
boneca morta
de olho aberto
- destino incerto
Brayan Carvalho
Ele gostava de mentir.
Desde sempre. Não lembrava sequer sua primeira vez, embora soubesse que nunca havia errado a mão nas mirabolâncias de suas histórias. É que nunca mentia apenas por prazer, mentia até mais por necessidade do que por simples aptidão. Se precisava escapar de uma encrenca ou garantir sua diversão arrumando um par para os bailes do colégio, aí mentia. Porque sua felicidade estava em jogo, mas ninguém entenderia o quão importante isto era para ele. E pela felicidade mentia; para a felicidade mentia.
Até que, homem feito já, recebeu no portão de sua casa um garotinho de pouca idade, talvez treze, talvez até menos. Pedia comida, um pão, um pacote de biscoitos, a sobra do almoço, o que fosse possível, na mais pura e singela educação, como se fosse experiente nessa prática. E era, reconheceu o nosso protagonista. Mas aquilo era inadmissível! Uma criança pedindo assim, tão desprotegida, e ainda por cima sem avisar a ninguém! Não estava pronto, decididamente, não era assim que as coisas funcionavam. Aquela cena desmontava toda a felicidade construída a muito custo durante todos aqueles anos. Felicidade de mentira.
Foi quando ele disse pro menino: olha, não tenho nada para lhe oferecer, nem sei porque você veio parar logo aqui neste portão, eu sequer existo, como posso te dar alguma coisa se nem sou de verdade?, entendeu?, então boa sorte e desculpa te desapontar.
Mal terminou de fechar o portão para o menino, o homem desapareceu. Assim, desapareceu, com todas as letras e todo o sumiço a que é digno de um desaparecimento. Desapareceu também sua casa, e junto com ela tudo o que havia dentro - tudo o que era fruto da mentira de anos.
Só o garotinho ainda continuava, de porta em porta em porta em porta.
Brayan Carvalho
Até que, homem feito já, recebeu no portão de sua casa um garotinho de pouca idade, talvez treze, talvez até menos. Pedia comida, um pão, um pacote de biscoitos, a sobra do almoço, o que fosse possível, na mais pura e singela educação, como se fosse experiente nessa prática. E era, reconheceu o nosso protagonista. Mas aquilo era inadmissível! Uma criança pedindo assim, tão desprotegida, e ainda por cima sem avisar a ninguém! Não estava pronto, decididamente, não era assim que as coisas funcionavam. Aquela cena desmontava toda a felicidade construída a muito custo durante todos aqueles anos. Felicidade de mentira.
Foi quando ele disse pro menino: olha, não tenho nada para lhe oferecer, nem sei porque você veio parar logo aqui neste portão, eu sequer existo, como posso te dar alguma coisa se nem sou de verdade?, entendeu?, então boa sorte e desculpa te desapontar.
Mal terminou de fechar o portão para o menino, o homem desapareceu. Assim, desapareceu, com todas as letras e todo o sumiço a que é digno de um desaparecimento. Desapareceu também sua casa, e junto com ela tudo o que havia dentro - tudo o que era fruto da mentira de anos.
Só o garotinho ainda continuava, de porta em porta em porta em porta.
Brayan Carvalho
Vampiro
Antes fosse. Pelo menos justificaria sua sede. Mas é que - perdoem-me as senhoras e os senhores, pensava ele - mas é que hoje acordei assim. Às três e trinta e três da manhã. Três e trinta e três, riu sozinho, parece coisa de médico quando vai auscultar o pulmão da gente. Levantou foi ao banheiro bebeu água abriu a janela do apartamento olhou pela janela do apartamento: a noite lá fora. Uma cidade que, ufa!, dorme. Depois de tantos anos, a paz finalmente. A paz que, frustrantironicamente, não queria agora.
Folheando a agenda de telefone encontrou-a. Espantado, vale a pena comentar. Pois que não lembrava de ter algum dia anotado sequer seu número, talvez porque não acreditasse revê-la um dia. Não um dia, mas quem sabe uma noite?, sorriu involuntariamente malicioso. Ligou, ligou mesmo, ignorando o três que três vezes tremia no ar. Atenderam. Era ela. Conversaram. Ela disse que sim. Ele disse que sim. Ela disse me espera. Ele disse claro. Desligaram. Cerca de quarenta minutos depois (pra ele foi como inspirar e expirar) tocaram a campainha. Ela, claro. Ele abriu a porta. Ela entrou. Ele fechou a porta. Silêncio.
Hoje acordei me sentindo meio vampiro, sabe?, disse ele rindo do fundo de suas olheiras. Sentia-se seguro na presença dela. Concluiu que havia feito a coisa certa: chamá-la. Colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha (cabelo vermelho vivo, fogo) ela confessou estar esperando pela ligação dele. Tudo indicava que estava tudo certo, arranjado. Faltava só um dos dois se inclinar um pouco para a frente e estava feito. A alma dele estaria salva.
Foi quando, de olhos cerrados, decidiu finalmente aproximar-se, rosto a rosto, lábio a lábio. Mas provavelmente calculou errado a dimensão de seu alvo, pois sentiu que beijava não a boca de sua visitante, mas aquela mecha vermelha de cabelo agora atrás da orelha. Da cor do inferno. E ouviu, muito de perto, o estalar de músculos em seu pescoço. Ficaria por demais desapontado consigo mesmo, não fosse o sono estar voltando bem naquele momento.
E dormiu profundamente, a cabeça sem vida no colo de sua amante.
Brayan Carvalho
Folheando a agenda de telefone encontrou-a. Espantado, vale a pena comentar. Pois que não lembrava de ter algum dia anotado sequer seu número, talvez porque não acreditasse revê-la um dia. Não um dia, mas quem sabe uma noite?, sorriu involuntariamente malicioso. Ligou, ligou mesmo, ignorando o três que três vezes tremia no ar. Atenderam. Era ela. Conversaram. Ela disse que sim. Ele disse que sim. Ela disse me espera. Ele disse claro. Desligaram. Cerca de quarenta minutos depois (pra ele foi como inspirar e expirar) tocaram a campainha. Ela, claro. Ele abriu a porta. Ela entrou. Ele fechou a porta. Silêncio.
Hoje acordei me sentindo meio vampiro, sabe?, disse ele rindo do fundo de suas olheiras. Sentia-se seguro na presença dela. Concluiu que havia feito a coisa certa: chamá-la. Colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha (cabelo vermelho vivo, fogo) ela confessou estar esperando pela ligação dele. Tudo indicava que estava tudo certo, arranjado. Faltava só um dos dois se inclinar um pouco para a frente e estava feito. A alma dele estaria salva.
Foi quando, de olhos cerrados, decidiu finalmente aproximar-se, rosto a rosto, lábio a lábio. Mas provavelmente calculou errado a dimensão de seu alvo, pois sentiu que beijava não a boca de sua visitante, mas aquela mecha vermelha de cabelo agora atrás da orelha. Da cor do inferno. E ouviu, muito de perto, o estalar de músculos em seu pescoço. Ficaria por demais desapontado consigo mesmo, não fosse o sono estar voltando bem naquele momento.
E dormiu profundamente, a cabeça sem vida no colo de sua amante.
Brayan Carvalho
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Cala!
Três horas sentado no sofá da sala com a confiança toda esvaindo quase rastejante pelo meu corpo...Uma moleza de sono, já...Fim das cobiças, por alguns instantes, desistência total de doente: logo, conformar-me como se eu mesmo assistisse toda esta incoerência incômoda como um cachorro morto em beira da rua...
Estive lírico e literário, amarrotando-me nas roupas que já não estão mais confortáveis, com o gosto estranho de menta que os chicletes me deixaram na boca: tudo um pequeno cativeiro... Estou cheirando menos ao perfume cítrico que mais parecia o sumo de laranja asiática. Estive e, estar sempre, causa uma coisa esquisita na gente, um confessional berrado a plenos pulmões de noite...
Já quero que ela não venha para poder desistir da certeza da resposta, tudo perdido, eu perdido e tudo... Resquícios de uma honra insólita de antigos cavalheiros: hoje não é mais nada hoje, até a saudade cala!
Eduardo Martins
Estive lírico e literário, amarrotando-me nas roupas que já não estão mais confortáveis, com o gosto estranho de menta que os chicletes me deixaram na boca: tudo um pequeno cativeiro... Estou cheirando menos ao perfume cítrico que mais parecia o sumo de laranja asiática. Estive e, estar sempre, causa uma coisa esquisita na gente, um confessional berrado a plenos pulmões de noite...
Já quero que ela não venha para poder desistir da certeza da resposta, tudo perdido, eu perdido e tudo... Resquícios de uma honra insólita de antigos cavalheiros: hoje não é mais nada hoje, até a saudade cala!
Eduardo Martins
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