A cidade inteira chora um pouco:
Uma criança morta na rua da feira, perto de comida, já tinha um pão velho na mão quando assassinou-se! Verdades também são crianças de joelhos mortos!
A cidade inteira correu, como sempre, no sempre parado e os cachorros tiveram o que comer de verdade na rua da feira: sem bagaços, a carne era fresca e dura e magra, mas já tinha vermes!
Não houve quem reclamasse da mancha de sangue no chão: as pessoas souberam por uma vez que eram perecíveis e depois a memória pereceu velha: depois de correr para dentro de si mesma e assassinar-se!
Eduardo Martins
domingo, 30 de agosto de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Quantos...
Olhava para a mesa em uma certa dúvida de sempre: se sempre fosse assim um espaço plano, o nada seria a queda, mas se o nada fosse, não seria nada...Divagações, apontamentos inúteis, eram um bom passatempo ao menos. O importante é que pensava nela e só conseguia vê-la em nuances de versos, por detrás das rimas: estes tempos que passam sozinhos versam sempre uns bordados belos de palavras: para ele eram bordados desiguais e belos, vermelho sangue dos cabelos dela...
Dos cabelos não esquecia: pôr de sol sempre pondo em semfim de firmamento, como se fossem os olhos dela, os olhos dela assim: astro-i-lógicos em madrugada pele branca e morna!
Como queria que amanhecesse assim, aos poucos, em sua pele, que deitassem sobre ele aquelas brumas quentes e que aquela dúvida que ela tinha estivesse tombada no chão frio dos palcos: se toda a dúvida fosse mentira seria uma bela atuação sem cortes... Coragem dos heróis mascarados dos quadrinhos...Mas os heróis sempre morrem míticos e mudos como o h de presságio...
Ela já corria toda pelo seu sangue, redividia as veias, resfacelava a carne, tingia vermelho o sangue e as paredes dele com seu nome: mesmo quieta e calada reverberava-se em eco eterno! Como o mundo é vazio sem ela, como ecoa ela em todo vazio, enchendo tudo em enchurradas de março!
Quantos anos dormem em um dia sem ela? Quantos sonambulam burlando o sono? Quantos têm nanose de minutos?
A mesa continua toda e parada, pelos pés dela escorre um nada que pensei que enchesse tudo, já não é março, mas uma chuva afina a realidade...a tarde talvez não venha vermelha, mas fria! Ainda há um dia acabando-se em versos por ela e eu, por dentro, escorro todo em vermelho!
Eduardo Martins
Dos cabelos não esquecia: pôr de sol sempre pondo em semfim de firmamento, como se fossem os olhos dela, os olhos dela assim: astro-i-lógicos em madrugada pele branca e morna!
Como queria que amanhecesse assim, aos poucos, em sua pele, que deitassem sobre ele aquelas brumas quentes e que aquela dúvida que ela tinha estivesse tombada no chão frio dos palcos: se toda a dúvida fosse mentira seria uma bela atuação sem cortes... Coragem dos heróis mascarados dos quadrinhos...Mas os heróis sempre morrem míticos e mudos como o h de presságio...
Ela já corria toda pelo seu sangue, redividia as veias, resfacelava a carne, tingia vermelho o sangue e as paredes dele com seu nome: mesmo quieta e calada reverberava-se em eco eterno! Como o mundo é vazio sem ela, como ecoa ela em todo vazio, enchendo tudo em enchurradas de março!
Quantos anos dormem em um dia sem ela? Quantos sonambulam burlando o sono? Quantos têm nanose de minutos?
A mesa continua toda e parada, pelos pés dela escorre um nada que pensei que enchesse tudo, já não é março, mas uma chuva afina a realidade...a tarde talvez não venha vermelha, mas fria! Ainda há um dia acabando-se em versos por ela e eu, por dentro, escorro todo em vermelho!
Eduardo Martins
Haicaix
roupa no varal
secando ao vento
e o sol soprando
________
morreu de fome
durante a guerra:
foi comer terra.
________
boneca morta
de olho aberto
- destino incerto
Brayan Carvalho
secando ao vento
e o sol soprando
________
morreu de fome
durante a guerra:
foi comer terra.
________
boneca morta
de olho aberto
- destino incerto
Brayan Carvalho
Ele gostava de mentir.
Desde sempre. Não lembrava sequer sua primeira vez, embora soubesse que nunca havia errado a mão nas mirabolâncias de suas histórias. É que nunca mentia apenas por prazer, mentia até mais por necessidade do que por simples aptidão. Se precisava escapar de uma encrenca ou garantir sua diversão arrumando um par para os bailes do colégio, aí mentia. Porque sua felicidade estava em jogo, mas ninguém entenderia o quão importante isto era para ele. E pela felicidade mentia; para a felicidade mentia.
Até que, homem feito já, recebeu no portão de sua casa um garotinho de pouca idade, talvez treze, talvez até menos. Pedia comida, um pão, um pacote de biscoitos, a sobra do almoço, o que fosse possível, na mais pura e singela educação, como se fosse experiente nessa prática. E era, reconheceu o nosso protagonista. Mas aquilo era inadmissível! Uma criança pedindo assim, tão desprotegida, e ainda por cima sem avisar a ninguém! Não estava pronto, decididamente, não era assim que as coisas funcionavam. Aquela cena desmontava toda a felicidade construída a muito custo durante todos aqueles anos. Felicidade de mentira.
Foi quando ele disse pro menino: olha, não tenho nada para lhe oferecer, nem sei porque você veio parar logo aqui neste portão, eu sequer existo, como posso te dar alguma coisa se nem sou de verdade?, entendeu?, então boa sorte e desculpa te desapontar.
Mal terminou de fechar o portão para o menino, o homem desapareceu. Assim, desapareceu, com todas as letras e todo o sumiço a que é digno de um desaparecimento. Desapareceu também sua casa, e junto com ela tudo o que havia dentro - tudo o que era fruto da mentira de anos.
Só o garotinho ainda continuava, de porta em porta em porta em porta.
Brayan Carvalho
Até que, homem feito já, recebeu no portão de sua casa um garotinho de pouca idade, talvez treze, talvez até menos. Pedia comida, um pão, um pacote de biscoitos, a sobra do almoço, o que fosse possível, na mais pura e singela educação, como se fosse experiente nessa prática. E era, reconheceu o nosso protagonista. Mas aquilo era inadmissível! Uma criança pedindo assim, tão desprotegida, e ainda por cima sem avisar a ninguém! Não estava pronto, decididamente, não era assim que as coisas funcionavam. Aquela cena desmontava toda a felicidade construída a muito custo durante todos aqueles anos. Felicidade de mentira.
Foi quando ele disse pro menino: olha, não tenho nada para lhe oferecer, nem sei porque você veio parar logo aqui neste portão, eu sequer existo, como posso te dar alguma coisa se nem sou de verdade?, entendeu?, então boa sorte e desculpa te desapontar.
Mal terminou de fechar o portão para o menino, o homem desapareceu. Assim, desapareceu, com todas as letras e todo o sumiço a que é digno de um desaparecimento. Desapareceu também sua casa, e junto com ela tudo o que havia dentro - tudo o que era fruto da mentira de anos.
Só o garotinho ainda continuava, de porta em porta em porta em porta.
Brayan Carvalho
Vampiro
Antes fosse. Pelo menos justificaria sua sede. Mas é que - perdoem-me as senhoras e os senhores, pensava ele - mas é que hoje acordei assim. Às três e trinta e três da manhã. Três e trinta e três, riu sozinho, parece coisa de médico quando vai auscultar o pulmão da gente. Levantou foi ao banheiro bebeu água abriu a janela do apartamento olhou pela janela do apartamento: a noite lá fora. Uma cidade que, ufa!, dorme. Depois de tantos anos, a paz finalmente. A paz que, frustrantironicamente, não queria agora.
Folheando a agenda de telefone encontrou-a. Espantado, vale a pena comentar. Pois que não lembrava de ter algum dia anotado sequer seu número, talvez porque não acreditasse revê-la um dia. Não um dia, mas quem sabe uma noite?, sorriu involuntariamente malicioso. Ligou, ligou mesmo, ignorando o três que três vezes tremia no ar. Atenderam. Era ela. Conversaram. Ela disse que sim. Ele disse que sim. Ela disse me espera. Ele disse claro. Desligaram. Cerca de quarenta minutos depois (pra ele foi como inspirar e expirar) tocaram a campainha. Ela, claro. Ele abriu a porta. Ela entrou. Ele fechou a porta. Silêncio.
Hoje acordei me sentindo meio vampiro, sabe?, disse ele rindo do fundo de suas olheiras. Sentia-se seguro na presença dela. Concluiu que havia feito a coisa certa: chamá-la. Colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha (cabelo vermelho vivo, fogo) ela confessou estar esperando pela ligação dele. Tudo indicava que estava tudo certo, arranjado. Faltava só um dos dois se inclinar um pouco para a frente e estava feito. A alma dele estaria salva.
Foi quando, de olhos cerrados, decidiu finalmente aproximar-se, rosto a rosto, lábio a lábio. Mas provavelmente calculou errado a dimensão de seu alvo, pois sentiu que beijava não a boca de sua visitante, mas aquela mecha vermelha de cabelo agora atrás da orelha. Da cor do inferno. E ouviu, muito de perto, o estalar de músculos em seu pescoço. Ficaria por demais desapontado consigo mesmo, não fosse o sono estar voltando bem naquele momento.
E dormiu profundamente, a cabeça sem vida no colo de sua amante.
Brayan Carvalho
Folheando a agenda de telefone encontrou-a. Espantado, vale a pena comentar. Pois que não lembrava de ter algum dia anotado sequer seu número, talvez porque não acreditasse revê-la um dia. Não um dia, mas quem sabe uma noite?, sorriu involuntariamente malicioso. Ligou, ligou mesmo, ignorando o três que três vezes tremia no ar. Atenderam. Era ela. Conversaram. Ela disse que sim. Ele disse que sim. Ela disse me espera. Ele disse claro. Desligaram. Cerca de quarenta minutos depois (pra ele foi como inspirar e expirar) tocaram a campainha. Ela, claro. Ele abriu a porta. Ela entrou. Ele fechou a porta. Silêncio.
Hoje acordei me sentindo meio vampiro, sabe?, disse ele rindo do fundo de suas olheiras. Sentia-se seguro na presença dela. Concluiu que havia feito a coisa certa: chamá-la. Colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha (cabelo vermelho vivo, fogo) ela confessou estar esperando pela ligação dele. Tudo indicava que estava tudo certo, arranjado. Faltava só um dos dois se inclinar um pouco para a frente e estava feito. A alma dele estaria salva.
Foi quando, de olhos cerrados, decidiu finalmente aproximar-se, rosto a rosto, lábio a lábio. Mas provavelmente calculou errado a dimensão de seu alvo, pois sentiu que beijava não a boca de sua visitante, mas aquela mecha vermelha de cabelo agora atrás da orelha. Da cor do inferno. E ouviu, muito de perto, o estalar de músculos em seu pescoço. Ficaria por demais desapontado consigo mesmo, não fosse o sono estar voltando bem naquele momento.
E dormiu profundamente, a cabeça sem vida no colo de sua amante.
Brayan Carvalho
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Cala!
Três horas sentado no sofá da sala com a confiança toda esvaindo quase rastejante pelo meu corpo...Uma moleza de sono, já...Fim das cobiças, por alguns instantes, desistência total de doente: logo, conformar-me como se eu mesmo assistisse toda esta incoerência incômoda como um cachorro morto em beira da rua...
Estive lírico e literário, amarrotando-me nas roupas que já não estão mais confortáveis, com o gosto estranho de menta que os chicletes me deixaram na boca: tudo um pequeno cativeiro... Estou cheirando menos ao perfume cítrico que mais parecia o sumo de laranja asiática. Estive e, estar sempre, causa uma coisa esquisita na gente, um confessional berrado a plenos pulmões de noite...
Já quero que ela não venha para poder desistir da certeza da resposta, tudo perdido, eu perdido e tudo... Resquícios de uma honra insólita de antigos cavalheiros: hoje não é mais nada hoje, até a saudade cala!
Eduardo Martins
Estive lírico e literário, amarrotando-me nas roupas que já não estão mais confortáveis, com o gosto estranho de menta que os chicletes me deixaram na boca: tudo um pequeno cativeiro... Estou cheirando menos ao perfume cítrico que mais parecia o sumo de laranja asiática. Estive e, estar sempre, causa uma coisa esquisita na gente, um confessional berrado a plenos pulmões de noite...
Já quero que ela não venha para poder desistir da certeza da resposta, tudo perdido, eu perdido e tudo... Resquícios de uma honra insólita de antigos cavalheiros: hoje não é mais nada hoje, até a saudade cala!
Eduardo Martins
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Pelos corredores...
Uma noite semi-nua nos seus cabelos pretos escorrendo pelo pescoço, embolando em minhas mãos o seu cheiro!
As pessoas passam, passam os livros, as horas presas nas páginas dos livros, as inspirações didáticas dos discursos gritam quase roucas de sempre entre as paredes, vazam pelas portas!
Nada mais existe e o que insiste talvez não seja nada quando o fim do toda estrada são seus olhos dizendo sim...
Eduardo Martins (Eu disse que escreveria, não disse?)
As pessoas passam, passam os livros, as horas presas nas páginas dos livros, as inspirações didáticas dos discursos gritam quase roucas de sempre entre as paredes, vazam pelas portas!
Nada mais existe e o que insiste talvez não seja nada quando o fim do toda estrada são seus olhos dizendo sim...
Eduardo Martins (Eu disse que escreveria, não disse?)
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