É que estas noites deixam meus olhos com ares de mar, com mares de ares marinheiros, perdidos inteiros neste sonhar de mares inteiros batendo a beira de mim, em beira de praia calada e cheia de sussurros destes fantasmas inseguros, tão próximos amantes do fim!
É que assim, de braços dados com eles, pego a braçadas as estradas mudas do mundo, em olhares fundos dos mares engolindo as estradas, os pecados de beira de rua, os segredos pescados das bocas deles para meus ouvidos: meus fantasmas, esquecidos, brotam tulipas azuis das bocas, flores que voam como moscas, que são palavras inaceitas, com gosto de sica, escorrendo feito agua de bica impune!
Aceito! Meu dedo aliançado com toda incerteza: uma grinalda de despesas despede-me das certezas vulgares que me afastam dos teus olhos, minha querida vida frívola! Prometo amar-te, não caber-te em sonetos, prometo porres perfeitos de belos luares de linho, com gosto de vinho derramado em mares...
Perco tudo - eu sou um arremedo quixotesco com dedos de pianista de teclas mudas- e não tenho nada mais que antes não tinha!: confesso-me, professo-me, prometo-me: sou de tal forma um arremedo que imito a mim mesmo para no fim, atirar a eso estes segredos de mim!
Lá fora sussurram umas verdades da boca dos outros, pelos quintais dos poucos homens que não tem nada mais do que têm de verdade: dialética poética da certeza! Por sobre a mesa, sirvo minha vida: prato frio sem requintes de ser quente!
Ainda me perco numa noite destas, ainda reconheço as brechas das gargantas dos meus fantasmas!!!
Eduardo Martins
domingo, 20 de setembro de 2009
sábado, 19 de setembro de 2009
Esmolas, minhas, esmolas...
À beira dos palcos umas luzes falam luxuosas como rainhas um linguajar muito arquétipo, um silêncio caótico, patético...Mas eu, muito longe, no muro alto na fronte do palco, sigo cego, ensurdeço as lâmpadas soltas pelas calçadas de gente passando esquecida de ser gente, detida, parada, rompida em beira de estrada de si, pedindo encarecida uma mão sobre a ferida de existir diferente das luzes coroadas, coronárias, abertas, sepulcárias...
Os sons secos saem sempre das bolsas soberbas, sem nada mais que um pouco: agradecimento prático de antes da chuva da tarde... Sorrio o gosto do pão quente e vazio entre os dentes, sentindo o sal do pão na calçada fria... Fim de dia, fim de tarde, eu uma pobre tempestade cancelada à luz do dia!
Alto de palco, máscara quebrada, mas de ouro, mais flores, ma(i)s nada: vitória compulsiva dos grandes artistas, rostos entre letras de revistas, rostos entre rostos das mulheres da platéia, aclamação ordinária das damas velhas, rolar pela boca das jovens línguas: declarações, aclamações: Salva de palmas, pelas ressalvas da máscara morta, salvem as palmas a artéria aorta dos palcos cegos, altos, sem ter tempestades...
Se me perguntam se eu tenho perdas, perdas não há quando haver não dá asas para tudo e embala em plumas as pobres brumas do nada...Quem leva as chuvas pelas as estradas são os ventos, são os ventos, são zéfiros detentos em antigas moradas...
Eduardo Martins
Os sons secos saem sempre das bolsas soberbas, sem nada mais que um pouco: agradecimento prático de antes da chuva da tarde... Sorrio o gosto do pão quente e vazio entre os dentes, sentindo o sal do pão na calçada fria... Fim de dia, fim de tarde, eu uma pobre tempestade cancelada à luz do dia!
Alto de palco, máscara quebrada, mas de ouro, mais flores, ma(i)s nada: vitória compulsiva dos grandes artistas, rostos entre letras de revistas, rostos entre rostos das mulheres da platéia, aclamação ordinária das damas velhas, rolar pela boca das jovens línguas: declarações, aclamações: Salva de palmas, pelas ressalvas da máscara morta, salvem as palmas a artéria aorta dos palcos cegos, altos, sem ter tempestades...
Se me perguntam se eu tenho perdas, perdas não há quando haver não dá asas para tudo e embala em plumas as pobres brumas do nada...Quem leva as chuvas pelas as estradas são os ventos, são os ventos, são zéfiros detentos em antigas moradas...
Eduardo Martins
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Criacionismo
Deus criou o mundo em seis dias, depois olhou, cansou no sétimo, fingiu que era bom e bebeu um gole arquétipo do primeiro motivo vão: o homem, cidra da serpente! De repente, envenenado e incoerente, caiu arfante feito arcano gigante no chão serpenteando feito serpente em ano chinês!
Era o fim, era tarde, eram três horas da tarde e um Cristo covarde chorou ateu e são! São Cipriano, mago profano, abençoa este estigma de meu irmão de ciência, abençoa a indescência deste povo que, no mais, é irmão de Barrabás, é antraz das palavras, é sangue em estradas sagradas de Satanás (sangradas, além do mais, da coroa que faz chover a garoa de morrer sem pecados, sem humanos atos que te livrem de ser menos que mais)!
Vaga pela vela, fogo informe de Joana D'arc, doce arcanjo, faz crer que é uniforme o que na verdade te consome, mostra que a morte é obra-prima irmã do homem!
Eduardo Martins
Era o fim, era tarde, eram três horas da tarde e um Cristo covarde chorou ateu e são! São Cipriano, mago profano, abençoa este estigma de meu irmão de ciência, abençoa a indescência deste povo que, no mais, é irmão de Barrabás, é antraz das palavras, é sangue em estradas sagradas de Satanás (sangradas, além do mais, da coroa que faz chover a garoa de morrer sem pecados, sem humanos atos que te livrem de ser menos que mais)!
Vaga pela vela, fogo informe de Joana D'arc, doce arcanjo, faz crer que é uniforme o que na verdade te consome, mostra que a morte é obra-prima irmã do homem!
Eduardo Martins
domingo, 30 de agosto de 2009
Seis cachorros, três cadelas, trinta e dois feirantes e um menino chamado José
A cidade inteira chora um pouco:
Uma criança morta na rua da feira, perto de comida, já tinha um pão velho na mão quando assassinou-se! Verdades também são crianças de joelhos mortos!
A cidade inteira correu, como sempre, no sempre parado e os cachorros tiveram o que comer de verdade na rua da feira: sem bagaços, a carne era fresca e dura e magra, mas já tinha vermes!
Não houve quem reclamasse da mancha de sangue no chão: as pessoas souberam por uma vez que eram perecíveis e depois a memória pereceu velha: depois de correr para dentro de si mesma e assassinar-se!
Eduardo Martins
Uma criança morta na rua da feira, perto de comida, já tinha um pão velho na mão quando assassinou-se! Verdades também são crianças de joelhos mortos!
A cidade inteira correu, como sempre, no sempre parado e os cachorros tiveram o que comer de verdade na rua da feira: sem bagaços, a carne era fresca e dura e magra, mas já tinha vermes!
Não houve quem reclamasse da mancha de sangue no chão: as pessoas souberam por uma vez que eram perecíveis e depois a memória pereceu velha: depois de correr para dentro de si mesma e assassinar-se!
Eduardo Martins
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Quantos...
Olhava para a mesa em uma certa dúvida de sempre: se sempre fosse assim um espaço plano, o nada seria a queda, mas se o nada fosse, não seria nada...Divagações, apontamentos inúteis, eram um bom passatempo ao menos. O importante é que pensava nela e só conseguia vê-la em nuances de versos, por detrás das rimas: estes tempos que passam sozinhos versam sempre uns bordados belos de palavras: para ele eram bordados desiguais e belos, vermelho sangue dos cabelos dela...
Dos cabelos não esquecia: pôr de sol sempre pondo em semfim de firmamento, como se fossem os olhos dela, os olhos dela assim: astro-i-lógicos em madrugada pele branca e morna!
Como queria que amanhecesse assim, aos poucos, em sua pele, que deitassem sobre ele aquelas brumas quentes e que aquela dúvida que ela tinha estivesse tombada no chão frio dos palcos: se toda a dúvida fosse mentira seria uma bela atuação sem cortes... Coragem dos heróis mascarados dos quadrinhos...Mas os heróis sempre morrem míticos e mudos como o h de presságio...
Ela já corria toda pelo seu sangue, redividia as veias, resfacelava a carne, tingia vermelho o sangue e as paredes dele com seu nome: mesmo quieta e calada reverberava-se em eco eterno! Como o mundo é vazio sem ela, como ecoa ela em todo vazio, enchendo tudo em enchurradas de março!
Quantos anos dormem em um dia sem ela? Quantos sonambulam burlando o sono? Quantos têm nanose de minutos?
A mesa continua toda e parada, pelos pés dela escorre um nada que pensei que enchesse tudo, já não é março, mas uma chuva afina a realidade...a tarde talvez não venha vermelha, mas fria! Ainda há um dia acabando-se em versos por ela e eu, por dentro, escorro todo em vermelho!
Eduardo Martins
Dos cabelos não esquecia: pôr de sol sempre pondo em semfim de firmamento, como se fossem os olhos dela, os olhos dela assim: astro-i-lógicos em madrugada pele branca e morna!
Como queria que amanhecesse assim, aos poucos, em sua pele, que deitassem sobre ele aquelas brumas quentes e que aquela dúvida que ela tinha estivesse tombada no chão frio dos palcos: se toda a dúvida fosse mentira seria uma bela atuação sem cortes... Coragem dos heróis mascarados dos quadrinhos...Mas os heróis sempre morrem míticos e mudos como o h de presságio...
Ela já corria toda pelo seu sangue, redividia as veias, resfacelava a carne, tingia vermelho o sangue e as paredes dele com seu nome: mesmo quieta e calada reverberava-se em eco eterno! Como o mundo é vazio sem ela, como ecoa ela em todo vazio, enchendo tudo em enchurradas de março!
Quantos anos dormem em um dia sem ela? Quantos sonambulam burlando o sono? Quantos têm nanose de minutos?
A mesa continua toda e parada, pelos pés dela escorre um nada que pensei que enchesse tudo, já não é março, mas uma chuva afina a realidade...a tarde talvez não venha vermelha, mas fria! Ainda há um dia acabando-se em versos por ela e eu, por dentro, escorro todo em vermelho!
Eduardo Martins
Haicaix
roupa no varal
secando ao vento
e o sol soprando
________
morreu de fome
durante a guerra:
foi comer terra.
________
boneca morta
de olho aberto
- destino incerto
Brayan Carvalho
secando ao vento
e o sol soprando
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morreu de fome
durante a guerra:
foi comer terra.
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boneca morta
de olho aberto
- destino incerto
Brayan Carvalho
Ele gostava de mentir.
Desde sempre. Não lembrava sequer sua primeira vez, embora soubesse que nunca havia errado a mão nas mirabolâncias de suas histórias. É que nunca mentia apenas por prazer, mentia até mais por necessidade do que por simples aptidão. Se precisava escapar de uma encrenca ou garantir sua diversão arrumando um par para os bailes do colégio, aí mentia. Porque sua felicidade estava em jogo, mas ninguém entenderia o quão importante isto era para ele. E pela felicidade mentia; para a felicidade mentia.
Até que, homem feito já, recebeu no portão de sua casa um garotinho de pouca idade, talvez treze, talvez até menos. Pedia comida, um pão, um pacote de biscoitos, a sobra do almoço, o que fosse possível, na mais pura e singela educação, como se fosse experiente nessa prática. E era, reconheceu o nosso protagonista. Mas aquilo era inadmissível! Uma criança pedindo assim, tão desprotegida, e ainda por cima sem avisar a ninguém! Não estava pronto, decididamente, não era assim que as coisas funcionavam. Aquela cena desmontava toda a felicidade construída a muito custo durante todos aqueles anos. Felicidade de mentira.
Foi quando ele disse pro menino: olha, não tenho nada para lhe oferecer, nem sei porque você veio parar logo aqui neste portão, eu sequer existo, como posso te dar alguma coisa se nem sou de verdade?, entendeu?, então boa sorte e desculpa te desapontar.
Mal terminou de fechar o portão para o menino, o homem desapareceu. Assim, desapareceu, com todas as letras e todo o sumiço a que é digno de um desaparecimento. Desapareceu também sua casa, e junto com ela tudo o que havia dentro - tudo o que era fruto da mentira de anos.
Só o garotinho ainda continuava, de porta em porta em porta em porta.
Brayan Carvalho
Até que, homem feito já, recebeu no portão de sua casa um garotinho de pouca idade, talvez treze, talvez até menos. Pedia comida, um pão, um pacote de biscoitos, a sobra do almoço, o que fosse possível, na mais pura e singela educação, como se fosse experiente nessa prática. E era, reconheceu o nosso protagonista. Mas aquilo era inadmissível! Uma criança pedindo assim, tão desprotegida, e ainda por cima sem avisar a ninguém! Não estava pronto, decididamente, não era assim que as coisas funcionavam. Aquela cena desmontava toda a felicidade construída a muito custo durante todos aqueles anos. Felicidade de mentira.
Foi quando ele disse pro menino: olha, não tenho nada para lhe oferecer, nem sei porque você veio parar logo aqui neste portão, eu sequer existo, como posso te dar alguma coisa se nem sou de verdade?, entendeu?, então boa sorte e desculpa te desapontar.
Mal terminou de fechar o portão para o menino, o homem desapareceu. Assim, desapareceu, com todas as letras e todo o sumiço a que é digno de um desaparecimento. Desapareceu também sua casa, e junto com ela tudo o que havia dentro - tudo o que era fruto da mentira de anos.
Só o garotinho ainda continuava, de porta em porta em porta em porta.
Brayan Carvalho
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